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quarta-feira, 9 de novembro de 2011

É fácil contrair TB?


“Não há onde se esconder da bactéria da tuberculose”, alerta o Dr. Arata Kochi, diretor do Programa Global para Tuberculose, da OMS. “Qualquer pessoa pode pegar TB simplesmente inalando um micróbio da TB lançado no ar pela tosse ou por um espirro. Esses micróbios podem permanecer suspensos no ar por horas, até anos. Todos nós corremos risco.”
Antes de a pessoa adoecer de TB, contudo, é preciso que aconteçam duas coisas. Primeiro, ela precisa estar infectada com a bactéria da TB. Segundo, a infecção tem de evoluir para a doença.
Embora seja possível infectar-se num contato breve com um doente altamente contagioso, a TB alastra-se com muito maior probabilidade por meio de contatos repetidos, tais como os de familiares que moram numa casa apertada.
Os bacilos inalados pela pessoa infectada multiplicam-se no peito. Em 9 de cada 10 pessoas, porém, o sistema imunológico impede a progressão da infecção, e o infectado não adoece. Às vezes, contudo, os bacilos latentes podem ser ativados, caso o sistema imunológico fique seriamente enfraquecido pelo HIV, pela diabetes, por tratamentos quimioterápicos de câncer ou por outras causas.

A TB e a moda


Por mais estranho que pareça, no século 19 a TB era romantizada, pois as pessoas acreditavam que seus sintomas realçavam os pendores sensíveis e artísticos da pessoa.
O dramaturgo e novelista Alexandre Dumas escreveu sobre como eram as coisas no início dos anos 1820, em suas Mémoires: “Era moda sofrer de males do peito; todo mundo era tuberculoso, especialmente os poetas; era chique morrer antes dos trinta anos.”
O poeta inglês lorde Byron disse, alegadamente: “Eu deveria gostar de morrer de tuberculose . . . pois todas as mulheres diriam: ‘Reparai no pobre Byron, como ele fica bem morrendo!’”
O escritor americano Henry David Thoreau, que aparentemente morreu de TB, escreveu: “A decadência e a doença muitas vezes são belas, . . . como o fulgor héctico da tuberculose.”
Sobre esse fascínio da TB, um artigo na revista da Associação Médica Americana disse: “Esse afeto paradoxal pela doença ditava as preferências na moda; as mulheres buscavam uma aparência pálida, frágil, usavam maquiagem esbranquiçada e preferiam roupas leves de musselina — um tanto parecidas com o efeito desejado pelas atuais modelos de aparência anoréxica.”

Fatos sobre a TB


Definição: a TB é uma doença que, em geral, ataca e gradativamente destrói os pulmões, mas pode também espalhar-se para outras áreas do corpo, particularmente o cérebro, os rins e os ossos.
Sintomas: a TB dos pulmões pode provocar tosse, perda de peso e de apetite, suor intenso à noite, fraqueza, falta de ar e dores no peito.
Diagnóstico: um teste cutâneo de tuberculina pode revelar se a pessoa teve contato com o bacilo. Um raio X do tórax pode revelar se há danos nos pulmões, o que pode indicar infecção de TB ativa. O exame de laboratório do escarro do paciente é o meio mais confiável de detectar bacilos da TB.
Quem deve fazer exames: Quem tem sintomas de TB ou teve contato estreito e repetido com um tuberculoso, especialmente em ambientes mal-arejados.
Vacina: Existe apenas uma, a BCG. Ela previne a TB severa em crianças, mas tem pouco efeito em adolescentes e adultos. Quando muito, a vacina protege por uns 15 anos. A BCG protege apenas os não-infectados; não beneficia os já infectados.

Prevenção e cura


O que está sendo feito para enfrentar essa emergência global? O melhor modo de controlar essa doença é detectar e curar casos infecciosos nos estágios iniciais. Isso não só ajuda o doente mas também corta o contágio.
A TB não tratada mata mais da metade de suas vítimas. Quando é tratada corretamente, contudo, ela é curável em quase todos os casos, a menos que seja do tipo resistente a múltiplas drogas.
Como vimos, o tratamento eficaz exige que os pacientes completem o ciclo inteiro de medicação. Freqüentemente, eles não fazem isso. Por que não? Bem, a tosse, a febre e outros sintomas em geral desaparecem algumas semanas depois do começo do tratamento. Assim, muitos pacientes concluem que estão curados e param de tomar os remédios.
Para atacar esse problema, a OMS promove um programa chamado DOTS, de “Tratamento de Curta Duração sob Vigilância Direta”, em inglês. Como o nome sugere, os agentes de saúde cuidam que seus pacientes realmente tomem as doses completas dos medicamentos, pelo menos nos primeiros dois meses de tratamento. Mas isso nem sempre é fácil, pois muitos tuberculosos vivem à margem da sociedade. Visto que muitos deles têm uma vida tumultuada e problemática — alguns não têm nem onde morar — o desafio de sempre verificar se estão tomando os remédios pode ser grande demais.

TB multidroga-resistente


Um último fator que dificulta a luta contra a TB é o surgimento de variedades de TB resistentes a drogas. Essas supervariedades ameaçam tornar a doença incurável, como era antes da chegada dos antibióticos.
Ironicamente, o uso deficiente de drogas anti-TB é a causa primária da TB multidroga-resistente. O tratamento eficaz da TB leva pelo menos seis meses e exige que os pacientes tomem quatro medicamentos diferentes com regularidade infalível. O paciente talvez tenha de engolir uma dúzia de comprimidos por dia. Quando o paciente não toma os remédios regularmente, ou não completa o tratamento, desenvolvem-se variedades de TB difíceis, ou impossíveis, de liquidar. Há variedades que resistem até a sete dos medicamentos padrão contra a tuberculose.
Tratar doentes com TB multidroga-resistente não é apenas difícil, mas também caro. O custo pode ser até cem vezes maior do que o de outros pacientes com TB. Nos Estados Unidos, por exemplo, a conta do tratamento de um único caso pode passar de 250 mil dólares!
A OMS estima que cerca de 100 milhões de pessoas no mundo possam estar infectadas com variedades de TB droga-resistentes, para algumas das quais não existem medicamentos de cura conhecidos. Essas variedades letais são tão contagiosas quanto as mais comuns.

HIV e TB: problema duplo


Um dos principais problemas é que a TB formou uma parceria letal com o HIV, o vírus da Aids. Dos calculadamente um milhão de mortos por doenças vinculadas à Aids, em 1995, talvez um terço tenha morrido de TB. Isso acontece porque o HIV mina a resistência do corpo à TB.
Na maioria das pessoas, a infecção da TB não chega a virar doença. Por que não? Porque os bacilos da TB são aprisionados em células chamadas macrófagos. Ali eles são bloqueados pelo sistema imunológico da pessoa, especialmente pelos linfócitos-T, ou células-T.
Os bacilos da TB são como serpentes confinadas em cestos com tampas bem fechadas. Os cestos são os macrófagos e as tampas as células-T. Quando o vírus da Aids entra em cena, porém, ele “destampa” os cestos. Com isso, os bacilos escapam e ficam livres para arruinar qualquer parte do corpo.
Portanto, os doentes de Aids têm uma probabilidade muito maior de desenvolver a TB ativa do que quem tem um sistema imunológico sadio. “Pessoas com HIV são tremendamente vulneráveis”, disse um especialista em TB na Escócia. “Dois doentes com HIV numa clínica em Londres contraíram a doença sentados num corredor por onde passou um tuberculoso transportado numa maca.”
Assim, a Aids tem dado força à epidemia da TB. Segundo certa estimativa, por volta do ano 2000, a epidemia da Aids resultará em 1,4 milhão de casos de TB que, de outra forma, não ocorreriam. Um fator importante no aumento da TB é que os aidéticos não são apenas altamente suscetíveis à doença mas podem também passar a TB para outras pessoas, incluindo os não-aidéticos.

Por que a volta mortal?


Uma das razões é que, nos últimos 20 anos, os programas de controle da TB deterioraram ou desapareceram em muitas partes do mundo. Isso resulta em demora no diagnóstico e no tratamento dos doentes e, assim, em mais mortes e alastramento da doença.
Outra razão do ressurgimento da TB é o crescente número de pobres e desnutridos que vivem em cidades apinhadas, notadamente nas megacidades dos países em desenvolvimento. Embora a TB não se restrinja às populações pobres — qualquer pessoa pode contraí-la — má higiene e moradias apertadas facilitam o contágio de uma pessoa para outra. Essas condições aumentam também as possibilidades de o sistema imunológico da pessoa não resistir à doença.

Ressurgimento mortífero


Em meados dos anos 80, a TB começou um retorno assustador e mortífero. Daí, em abril de 1993, a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou que a TB era “uma emergência global” e que ‘essa doença ceifaria mais de 30 milhões de vidas na próxima década, a menos que se tomasse uma ação imediata para coibir a sua disseminação’. Foi a primeira declaração desse tipo na história da OMS.
Desde então, nenhuma “ação imediata” conteve o alastramento da doença. Na verdade, a situação tem piorado. Recentemente, a OMS divulgou que o número de mortes por TB em 1995 foi maior do que em qualquer outro ano da História. A OMS alertou também que meio bilhão de pessoas talvez adoeçam de TB nos próximos 50 anos. Cada vez mais pessoas podem se tornar vítimas de TB multidroga-resistente, em muitos casos incurável.

Finalmente a cura!


Os médicos internavam os tuberculosos em sanatórios. Esses hospitais em geral ficavam nas montanhas, onde os pacientes podiam descansar e respirar ar puro. Daí, em 1944, médicos nos Estados Unidos descobriram a estreptomicina, o primeiro antibiótico eficaz contra a TB. Logo vieram outros medicamentos anti-TB. Finalmente, os pacientes de TB podiam ser curados, até mesmo em casa.
Com os índices de infecção despencando, o futuro parecia promissor. Os sanatórios fecharam, e as verbas para a pesquisa da TB secaram. Programas de prevenção foram abandonados, e os cientistas e os médicos voltaram-se para novos desafios.
Embora a TB ainda matasse muita gente nos países em desenvolvimento, as coisas com certeza melhorariam. A TB era coisa do passado. É isso o que as pessoas pensavam, mas elas estavam enganadas.

Triunfo e tragédia


“A história da tuberculose nos últimos 30 anos é de triunfo e de tragédia — o triunfo dos cientistas que forneceram os meios de controle e possível erradicação da doença, e a tragédia do amplo mau aproveitamento de suas descobertas.” — J. R. Bignall, 1982.
A TUBERCULOSE (TB) mata há muito tempo. Já afligia os incas do Peru muito antes de os europeus singrarem para a América do Sul. Atacava os egípcios nos tempos áureos dos faraós. Escritos antigos mostram que a TB castigava tanto nobres como plebeus na Babilônia, Grécia e China antigas.
Do século 18 até o início do século 20, a TB era a causa principal de mortes no Ocidente. Daí, em 1882, o médico alemão Robert Koch anunciou oficialmente a descoberta do bacilo responsável pela doença. Treze anos depois Wilhelm Röntgen descobriu os raios X, que possibilitavam examinar os pulmões de pessoas vivas em busca de sinais de lesões tuberculares. A seguir, em 1921, cientistas franceses criaram uma vacina contra a TB. A BCG (Bacilo Calmette-Guérin), que leva o nome dos cientistas que a descobriram, ainda é a única vacina que existe contra essa doença. Mas a TB continuava a cobrar um    

tributo terrível.




segunda-feira, 7 de novembro de 2011

A volta das doenças infecciosas


“O perigo das doenças infecciosas não desapareceu. Está piorando”, diz Robert Shope, da Universidade de Yale, comentando um relatório da Academia Nacional de Ciências, dos EUA. “Se não agirmos de novo para controlar esse assunto, poderemos ter novas crises similares à pandemia do HIV ou à pandemia da gripe espanhola de 1918-1919.” Quatro doenças já “surgiram aparentemente do nada, causando muito sofrimento e morte”, acrescenta Joshua Lederberg, co-presidente de Shope na comissão que preparou o relatório. Essas doenças são a TB (tuberculose) resistente a drogas, a AIDS, a doença de Lyme, e uma mortífera nova forma de infecção estreptocócica. Embora se tenham desenvolvido muitas drogas e antibióticos nas últimas três décadas, os micróbios desenvolveram resistência contra eles de várias maneiras. A bactéria, por exemplo, pode mudar o material genético, incluindo os genes para resistência a antibióticos. Conseqüentemente, hospitais, creches e abrigos para os sem-teto têm-se tornado centros geradores de doenças infecciosas resistentes a drogas. E o aumento de viagens internacionais tem disseminado “supermicróbios” ao redor do globo. Diz Barry Bloom, da Faculdade de Medicina Albert Einstein, de Nova Iorque: “Em termos de doenças infecciosas, não existe lugar remoto demais e nenhuma pessoa da qual estejamos desconectados.”

As devastações da sífilis


  A SÍFILIS é causada pelo Treponema pallidum, um espiroqueta em forma de saca-rolhas, e é contraída em geral através dos órgãos sexuais. Daí o espiroqueta entra na corrente sanguínea e espalha-se pelo corpo.
  Algumas semanas depois da infecção, aparece uma ferida chamada de cancro. Usualmente ela se forma nos órgãos sexuais mas pode em vez disso aparecer nos lábios, nas amígdalas ou nos dedos. O cancro por fim sara sem deixar cicatriz. Mas os germes continuam a espalhar-se pelo corpo até surgirem sintomas secundários: erupções cutâneas, dor de garganta, dor nas juntas, perda de cabelo, lesões, e inflamação dos olhos.
  Se não for tratada, a sífilis se instala numa fase incubada que pode durar a vida inteira. Se a mulher engravida nesse estágio, a criança pode nascer cega, deformada ou morta.
  Décadas mais tarde, alguns passam para o estágio posterior da sífilis, em que o espiroqueta talvez se instale no coração, no cérebro, na medula espinal ou em outras partes do corpo. Se o espiroqueta se alojar no cérebro, pode resultar em convulsões, paralisia geral e até mesmo insanidade. Por fim, a doença pode ser fatal.

Sífilis — um mortífero retorno



Apesar da eficácia da penicilina, a sífilis ainda campeia na África. Nos Estados Unidos, está fazendo seu mais forte retorno em 40 anos. Segundo o The New York Times, a sífilis está agora “ludibriando uma geração de médicos que raramente, se é que alguma vez, viram um caso [de sífilis]”. Por que esse ressurgimento?
Crack. O vício do crack propeliu o que um médico chama de “maratonas de cocaína e sexo”. Ao passo que os homens não raro roubam para sustentar o seu vício, as mulheres mais provavelmente vendem sexo em troca de drogas. “Nos postos de distribuição de crack”, diz o Dr. Willard Cates Jr., do Centro de Controle de Doenças, dos EUA, “há sexo e múltiplos parceiros. Qualquer infecção que predomine nesses ambientes é a que será transmitida”.
Falta de proteção. “Apesar da campanha de ‘sexo seguro’”, diz a revista Discover, “os adolescentes ainda são indiferentes ao uso de preservativos para se protegerem de doenças”. Um estudo realizado nos Estados Unidos revelou que apenas 12,6% dos que têm parceiros sexuais de risco usavam preservativos sempre.
Recursos limitados. Diz o The New York Times: “Cortes no orçamento sufocaram clínicas públicas em que a maioria dos casos de sífilis e de outras doenças sexualmente transmissíveis são diagnosticados.” Ademais, os métodos de avaliação nem sempre são exatos. Num hospital diversas mães deram à luz bebês infectados, no entanto, os exames de sangue prévios das mães não acusaram nenhuma evidência de sífilis.

tuberculose— um velho matador com novas manhas


A estreptomicina, a droga que prometia controlar a tuberculose, foi introduzida em 1947. Naquele tempo, pensava-se que a tuberculose seria eliminada definitivamente. Mas houve uma dura constatação em alguns países: os índices de TB aumentaram acentuadamente em anos recentes. “Nos bolsões de pobreza na América”, diz o The Washington Post, “os índices de TB são piores do que os dos mais pobres países da África subsaariana”. Em Côte d’Ivoire (Costa do Marfim) ocorre o que certa revista chama de “brutal ressurgimento da tuberculose”.
O Dr. Michael Iseman lamenta: “Sabíamos como curá-la. Nós a tínhamos nas mãos. Mas perdemos o lance.” O que impediu a luta contra a tuberculose?
AIDS. Visto que deixa a pessoa indefesa contra infecções, a AIDS é tida como uma das principais causas do ressurgimento da TB. “Se não morrerem de outra coisa primeiro”, diz o Dr. Iseman, “virtualmente 100% dos pacientes de AIDS portadores da bactéria da TB desenvolverão a doença”.
Ambiente. Prisões, sanatórios, abrigos para os sem-teto, hospitais e outras instituições podem virar focos de tuberculose. O Dr. Marvin Pomerantz relata que o uso num certo hospital de um tratamento sob forma de aerossol aumentou a tosse dos pacientes de pneumonia e, com isso, criou uma virtual epidemia de TB entre a equipe hospitalar.
Falta de recursos. Assim que a tuberculose parecia estar sob controle, os recursos financeiros minguaram, e a atenção do público voltou-se para outra direção. “Em vez de eliminar a TB”, diz o Dr. Lee Reichman, “nós eliminamos os programas de combate à tuberculose”. Diz o bioquímico Patrick Brennan: “No início dos anos 60 eu trabalhei intensamente num programa de resistência da TB às drogas, mas decidi abandonar isso porque pensei que a TB estivesse curada.” Assim, a volta da tuberculose pegou muitos médicos de surpresa. “Durante uma semana [no outono de 1989]”, disse certa médica, “eu vi quatro casos novos da doença que a minha professora na faculdade de medicina disse que eu jamais veria de novo”.