Vimos claramente que batalhas importantes foram vencidas. Mas algumas vitórias da saúde pública ficaram limitadas aos países mais ricos. Doenças tratáveis ainda matam milhões de pessoas, simplesmente por falta de recursos. Nos países em desenvolvimento, muitas pessoas ainda vivem em áreas sem saneamento adequado e não têm acesso a assistência médica nem a água potável. Atender tais necessidades básicas tem se tornado mais difícil devido às migrações em massa da zona rural para as megacidades do mundo em desenvolvimento. Como resultado de tais fatores, os pobres do mundo carregam o que a Organização Mundial da Saúde chamou de uma “parcela desproporcional do fardo das doenças”.
O egoísmo, com sua visão de curto alcance, é a principal causa desse desequilíbrio. “Algumas das doenças infecciosas mais mortíferas do mundo parecem distantes”, declara o livro Man and Microbes. “Algumas delas limitam-se inteira ou principalmente a regiões tropicais e subtropicais pobres.” Visto que os países desenvolvidos e as empresas farmacêuticas talvez não se beneficiem diretamente, eles resistem à idéia de destinar recursos para o tratamento de tais doenças.
O comportamento humano irresponsável também colabora na disseminação de doenças. Não há melhor exemplo dessa cruel realidade do que o do vírus da Aids, que é transmitido de uma pessoa para outra por meio dos fluidos do corpo. Em poucos anos, a pandemia se espalhou pelo mundo. (Veja o quadro “Aids — o flagelo dos nossos tempos”.) “Os próprios seres humanos são os responsáveis”, assevera o epidemiologista Joe McCormick. “E dizer isso não é ser moralista, é ser realista.”
Como o homem sem querer cooperara com o vírus da Aids? O livro A Próxima Peste alista os seguintes fatores: mudanças sociais — especialmente o costume de manter múltiplos parceiros sexuais — resultaram numa onda de doenças sexualmente transmissíveis, tornando muito mais fácil o vírus se estabelecer e um portador infectar muitas outras pessoas. O uso em larga escala de seringas contaminadas, que são reutilizadas para injeção de remédios em países em desenvolvimento ou por usuários de drogas, teve um efeito similar. A indústria global do sangue, que movimenta 1 bilhão de dólares, também permitiu que o vírus da Aids passasse de um doador para dezenas de receptores.
Como já mencionado, o uso excessivo e a subutilização dos antibióticos têm contribuído para o surgimento de micróbios resistentes. O problema é grave e está piorando. Os estafilococos, bactérias que costumam provocar infecção em ferimentos, eram facilmente eliminados com derivados de penicilina. Mas agora tais antibióticos tradicionais perderam o efeito em muitos casos. De modo que os médicos precisam recorrer a antibióticos mais novos e caros, que os hospitais nos países em desenvolvimento dificilmente conseguem obter. Até mesmo os antibióticos mais recentes talvez se mostrem incapazes de combater certos micróbios, tornando as infecções hospitalares mais comuns e mais mortíferas. O Dr. Richard Krause, ex-diretor do Instituto Nacional de Alergias e Doenças Infecciosas, dos EUA, descreveu a situação atual como “uma epidemia de resistência microbiana”.
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